"Você já tem dentro de si mais do que imagina. Às vezes, só precisa de alguém que enxergue."
Essa frase — que coloquei na parede do meu escritório há anos — resume, talvez melhor do que qualquer outra, por que escolhi esse trabalho.
O que vejo todos os dias
Trabalho com pessoas em transição de carreira há mais de duas décadas. E o padrão que mais me surpreendeu ao longo desse tempo não foi a falta de talentos — foi a quantidade de talentos que as pessoas simplesmente não conseguem enxergar em si mesmas.
O profissional que passou 15 anos construindo operações hoteleiras de excelência e acha que "não tem nada de especial para oferecer".
A gestora que desenvolveu uma equipe inteira do zero, reduziu turnover à metade e entregou os melhores resultados da história da unidade — e hesita em se candidatar para uma diretoria porque "ainda não se sente pronta".
O executivo que navegou uma reestruturação difícil, manteve o time junto, preservou os principais talentos e entregou a transição no prazo — e na hora de se posicionar no mercado, minimiza tudo isso como "só fiz o meu trabalho".
Isso não é modéstia. É uma distorção de perspectiva que custa caro — para esses profissionais e para as organizações que poderiam se beneficiar deles.
Por que enxergar valor no outro importa
Existe uma diferença fundamental entre um processo de recrutamento transacional — onde o profissional é avaliado por aderência a critérios de uma vaga — e um processo que parte de quem esse profissional realmente é.
No primeiro, o candidato precisa se encaixar.
No segundo, a pergunta é: onde esse profissional pode fazer a diferença mais significativa? Qual contexto vai permitir que ele expresse o que tem de melhor?
Essa segunda abordagem exige mais tempo, mais conversa, mais atenção. Exige que o headhunter esteja genuinamente interessado na trajetória da pessoa — não só nos critérios da vaga.
Mas é a única que, no final, resulta em contratações que realmente funcionam.
O que significa "enxergar" um profissional
Enxergar alguém no sentido que estou descrevendo é:
Escutar a trajetória sem julgamento de linearidade. Carreiras não-lineares — mudanças de área, pausas, transições inesperadas — carregam aprendizados que trajetórias lineares raramente têm. Um profissional que mudou de área aos 40 anos não é alguém que "se perdeu". É alguém que teve a coragem de se reinventar.
Identificar padrões de força que o próprio profissional não percebe. Às vezes, o que parece óbvio de fora é invisível de dentro. "Você sempre foi chamado para resolver situações críticas, em todos os lugares por onde passou — você percebeu isso?" Essa pergunta, feita no momento certo, pode mudar a forma como alguém se posiciona no mercado.
Conectar competências com contextos certos. O talento certo no contexto errado não performa. Parte do nosso trabalho é entender não só o que o profissional faz bem, mas onde ele faz melhor — e buscar ativamente esses contextos.
Ser honesto quando necessário. Enxergar alguém não significa só valorizar. Às vezes, significa dizer com cuidado: "Para essa posição específica, o seu perfil não é o mais indicado agora — mas para aquela, sim." Honestidade, quando vem de respeito, não diminui. Orienta.
O nosso lugar
Quando digo que "o nosso lugar é ao lado de quem quer chegar mais alto", não estou falando de ambição no sentido de cargo e salário.
Estou falando de querer mais de si mesmo. De ter clareza sobre o que se tem a oferecer. De encontrar o contexto onde se pode fazer diferença real.
Isso é o que buscamos — tanto para os candidatos que acompanhamos quanto para os clientes que atendemos.
Porque no final, uma contratação que realmente funciona é aquela onde o profissional encontrou onde pode ser inteiro. E a empresa encontrou quem vai realmente mover o ponteiro.
Ariana Mello é fundadora da AG Mello, Boutique de Executive Search especializada em hospitalidade, gastronomia e mercado corporativo. Acompanha trajetórias de líderes há mais de 20 anos.
Ariana Mello
Fundadora & CEO · AG Mello Boutique de Executive Search